ANATOMIA · 5 de outubro de 2026 · 4 min de leitura
Uma família começa pela morada
Eça de Queirós abriu Os Maias com uma casa, e não com uma pessoa. Lida devagar, a primeira página do romance já sabe como a história vai acabar.

Antes de conhecermos um único Maia, conhecemos a casa onde vão morar. O romance que Eça de Queirós publicou em 1888 começa assim, na grafia da primeira edição:
«A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janellas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.»
Abra-se a frase ao meio. O sujeito é a casa. Os Maias, que dão nome ao livro, aparecem metidos numa oração subordinada, como inquilinos numa escritura alheia. O verbo principal pertence às paredes e diz de que modo eram conhecidas: pela vizinhança, pelo bairro, por uma alcunha. A família chega em 1875; a casa já tinha fama. A frase arruma tudo pela ordem em que a cidade o conhece, e a cidade conhece primeiro a morada.
Repare-se no verbo. Os Maias «vieram habitar», como quem chega a um lugar que existia antes deles e que, adivinha-se, continuará de pé depois. E repare-se no nome, dito duas vezes: primeiro com a cerimónia inteira, casa do Ramalhete, depois com a intimidade de quem já dispensa o apelido, o Ramalhete. Numa só frase, a casa ganha aquilo que a família ainda não tem em Lisboa: reputação e um nome de trato.
A frase seguinte desmancha esse nome. «Apesar d’este fresco nome de vivenda campestre», escreve Eça, o Ramalhete é um «sombrio casarão de paredes severas», com o ar tristonho de residência eclesiástica; bastariam uma sineta e uma cruz para passar por colégio de jesuítas. O leitor recebe, na mesma página, um nome de ramo de flores e uma fachada de convento. Fica a saber, antes de qualquer enredo, que naquela casa o que se diz e o que se é não coincidem. Um romance que vai girar em torno de uma identidade escondida não podia ter melhor porteiro.
A origem do nome é ainda mais certeira. Vinha, conta o narrador, de um painel quadrado de azulejos posto «no logar heraldico do Escudo d’Armas, que nunca chegara a ser collocado»: um grande ramo de girassóis atado por uma fita, onde se distinguiam letras e números de uma data. Onde devia estar o brasão de uma família, a fachada tem flores. Para uma família cujo apelido vai morrer com Carlos, dificilmente se inventaria emblema mais exacto. O lugar do nome ficou vazio, e alguém o enfeitou.
Logo nas primeiras páginas, o procurador Vilaça lembra uma velha lenda, segundo a qual as paredes do Ramalhete eram «sempre fataes aos Maias». Afonso da Maia, liberal e viajado, despacha o agoiro com uma frase de homem esclarecido: quanto a lendas, bastaria abrir as janelas de par em par e deixar entrar o sol. A resposta tem graça e tem uma rima escondida com a fachada, porque os girassóis trazem o sol no próprio nome. Afonso confia que a luz chega para afastar a desgraça. O livro inteiro vai mostrar que não chega. O aviso estava escrito na parede, em azulejo, e o primeiro homem a lê-lo decidiu não acreditar.
Há ainda o jardim, que Eça descreve com um cuidado de inventário: os girassóis perfilados ao pé dos degraus do terraço, uma Vénus Citereia que parece chegada de Versalhes, uma cascatazinha a chorar gota a gota na bacia de mármore e duas árvores, «o cypreste e o cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes».
Quem já leu o fim do romance encontra nesta linha um pequeno arrepio. Os Maias terminam com dois amigos envelhecidos, Carlos e Ega, a concluir que nada na vida justifica uma corrida, nem o amor, nem a glória, nem o dinheiro, e logo a seguir a correrem desesperadamente para não perderem o americano. O cipreste e o cedro estavam lá desde o primeiro capítulo, quietos, a ensaiar o desfecho.
Eça arrumou esta casa de Lisboa a partir de Inglaterra, onde era cônsul, primeiro em Newcastle e depois em Bristol. Escreveu a morada mais célebre da literatura portuguesa de longe, com a minúcia de quem percorre de olhos fechados um lugar que não tem à frente, e deixou cada objecto no sítio onde mais tarde havia de pesar.
Na primeira frase, os Maias vêm habitar a casa. Quando o romance acaba, percebe-se que a gramática tinha razão desde o início, e que foi a casa a habitá-los a eles.
Fontes
- Eça de Queirós, Os Maias: episodios da vida romantica, 1888, cap. I (fonte primária). Digitalização do Projecto Gutenberg a partir de exemplares da Biblioteca Nacional de Portugal. Eça de Queirós, Os Maias, ed. Carlos Reis, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2018, cap. XVIII (desfecho).