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ANATOMIA · 15 de outubro de 2026 · 2 min de leitura

O dia em que D. Quixote encontrou o seu duplo impresso

Em 1614, apareceu uma continuação apócrifa das aventuras de D. Quixote. No ano seguinte, Cervantes fez entrar esse livro na sua própria ficção. A personagem lê a versão rival, muda de rumo e chega a pedir a uma das suas figuras que confirme, perante a lei, quem é o verdadeiro D. Quixote.

Numa estalagem, dois homens começam a ler um livro sobre D. Quixote. O protagonista está na mesa do lado, e depressa percebe que aquele volume conta as suas aventuras, mas não como ele as viveu.

O livro havia sido publicado em 1614, assinado por Alonso Fernández de Avellaneda. A identidade de quem se escondia sob esse nome continua por esclarecer. Em 1615, saiu a segunda parte escrita por Cervantes. A continuação apócrifa já circulava quando o autor concluiu o romance; a sua presença deixou marcas na forma final da obra.

Na versão de Avellaneda, D. Quixote vai a Saragoça. Quando sabe disso, o D. Quixote de Cervantes decide não pôr lá os pés. Segue para Barcelona, para desmentir o cronista que, sem lhe pedir licença, escreveu outra versão das suas aventuras. Uma disputa entre livros altera, assim, o itinerário de uma personagem. Cervantes transforma a publicação rival em matéria narrativa: o que foi impresso fora do romance passa a determinar o que acontece dentro dele.

A disputa chega a um ponto ainda mais insólito no capítulo 72. D. Quixote encontra Álvaro Tarfe, uma personagem inventada por Avellaneda e incluída na continuação rival. Pede-lhe que declare, perante o alcaide e um escrivão, que nunca conheceu aquele outro D. Quixote e que o homem diante dele não é o que aparece no livro de Avellaneda. Tarfe aceita e, por instantes, a ficção convoca uma testemunha para resolver uma questão de identidade.

A cena tem a precisão de um mecanismo cómico: uma personagem fictícia presta declarações sobre a sua própria ficcionalidade. Mas o gesto também muda a escala do conflito: mais do que corrigir uma história mal contada, D. Quixote pretende impedir que a versão alheia ocupe o lugar da sua. O livro rival tornou-se uma força dentro da narrativa, capaz de lhe alterar o caminho e de lhe disputar o nome.

Cervantes podia ter respondido a Avellaneda no prefácio. Em vez disso, põe a resposta a circular entre leitores, personagens, estradas e páginas impressas. A continuação apócrifa torna-se adversária do romance, mas também passa a fazer parte dele. Ao contestá-la, Cervantes dá-lhe presença na história que reivindica como verdadeira.

Há um instante em que D. Quixote luta contra uma versão publicada de si próprio. Para se defender, precisa de leitores que comparem os livros e de uma personagem que assine o testemunho.

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