RASCUNHOS · 27 de setembro de 2026 · 3 min de leitura
Trinta e nove finais, ou quarenta e sete
Hemingway disse que reescreveu trinta e nove vezes o fim de O Adeus às Armas. O arquivo encontrou quarenta e sete. Os dois números contam coisas diferentes, e é na diferença que o livro aparece.

Em 1958, numa entrevista a George Plimpton para a Paris Review, Ernest Hemingway ofereceu às oficinas de escrita um dos seus números preferidos. Perguntado sobre quanto reescrevia, respondeu que dependia, e que a última página de O Adeus às Armas tinha sido reescrita trinta e nove vezes até ficar satisfeito. Plimpton quis saber que problema técnico o tinha travado. A resposta coube em quatro palavras inglesas, getting the words right: acertar nas palavras.
A frase fez carreira. Repete-se em aulas, em listas de conselhos e em paredes de escritório, quase sempre sem a pergunta que lhe dá sentido e quase sempre arredondada para a ideia de que Hemingway escreveu trinta e nove finais. O que ele contou foi a reescrita da última página, e contou-o de memória, quase trinta anos depois de o romance ter saído, em 1929.
Em 2012, a editora Scribner publicou uma edição do livro com as variantes que estavam entre os papéis do escritor, guardados desde os anos setenta na Biblioteca Presidencial John F. Kennedy, em Boston. O neto, Seán Hemingway, autor da introdução, contou quarenta e sete. E acrescentou, com cautela, que o número confirmava a palavra do avô, mas que tudo dependia do que se considerasse um final, porque alguns eram fragmentos.
Trinta e nove de quê? Quarenta e sete de quê? Um número conta reescritas de uma página. O outro conta tentativas de fecho, algumas com poucas linhas. Nenhum desmente o outro, porque nenhum mede a mesma coisa. A anedota sobreviveu tanto tempo precisamente porque quase ninguém perguntou pela unidade.
Mais interessante do que a contagem é o que os papéis mostram. Os finais não diferem em vírgulas. Na edição de 2012 têm número e nome. No final do Nada, Frederic reduz tudo a uma promessa sem consolo: Catherine morreu, ele há-de morrer, nós havemos de morrer. No final do bebé vivo, a criança sobrevive, e o nascimento aparece como o único começo possível. No final de Fitzgerald, sugerido pelo amigo, o mundo parte toda a gente e mata sem distinção os muito bons, os muito gentis e os muito corajosos. Essa ideia acabou por ficar no romance, mas a meio, no capítulo 34, e não na última página.
Num desses finais, o filho de Frederic e Catherine vive. Isso muda o livro inteiro. Vista à luz dos rascunhos, a resposta a Plimpton descreve como problema de estilo uma hesitação que era também de sentido. Antes de acertar nas palavras, Hemingway teve de decidir o que acontecia, e o que o romance queria dizer sobre a morte.
Venceu a versão mais despida. O romance publicado acaba com Frederic a sair do hospital e a voltar para o hotel à chuva, in the rain, sem filosofia, sem consolo e sem a frase de Fitzgerald. Depois de experimentar dizer tudo, Hemingway escolheu quase não dizer nada. Durante quarenta e sete tentativas, a última frase do livro ainda não sabia o que queria ser. Quando soube, ficou curta.
Fontes
- «Ernest Hemingway, The Art of Fiction No. 21», entrevista de George Plimpton, The Paris Review, n.º 18, Primavera de 1958 (fonte primária). Ernest Hemingway, A Farewell to Arms: The Hemingway Library Edition, introdução de Seán Hemingway, Nova Iorque, Scribner, 2012. NPR, «New Edition Includes 39 Different Farewells To Arms», 22 de Julho de 2012 (entrevista a Seán Hemingway). NPR, «Exhibition Delves Below Deceptively Simple Surface Of Hemingway’s Prose», 12 de Outubro de 2015 (exposição da Morgan Library e papéis na Biblioteca JFK).