ANATOMIA · 29 de setembro de 2026 · 2 min de leitura
Três milhões de anos para ler um livro de sonetos
Em 1961, Raymond Queneau transformou dez sonetos num livro que o leitor pode recompor verso a verso. O resultado: 10¹⁴ poemas possíveis e uma pergunta sobre os limites da autoria.

Publicado em 1961, Cent mille milliards de poèmes contém dez sonetos. Cada verso está impresso numa tira horizontal, separada das restantes. Podemos escolher o primeiro verso de qualquer soneto, depois o segundo de outro, e seguir assim até ao décimo quarto. As rimas e as estruturas sintácticas foram construídas para que as combinações continuem a funcionar como sonetos.
Há dez possibilidades para cada verso e catorze versos em cada soneto. Dez vezes dez, repetido catorze vezes, dá 10¹⁴ combinações. Se lêssemos um soneto por segundo, sem parar para dormir, precisaríamos de mais de três milhões de anos para chegar ao último.
A ideia nasceu de uma brincadeira em papel. Queneau contou que se inspirara em Têtes folles, um livro infantil de figuras cortadas em partes: cabeças, troncos e pernas que se podiam combinar para formar personagens disparatadas. Aplicado à poesia, o princípio ganhou outra profundidade. Em vez de bonecos, versos; em vez de uma figura estranha, um soneto que muda à medida que o leitor mexe no livro.
A operação parece mecânica, mas a máquina foi preparada com cuidado. Queneau escreveu os dez sonetos de base e afinou as linhas para que pudessem trocar de lugar sem perder a forma. O livro é mais do que uma proeza aritmética. A forma fixa, que tantas vezes associamos à disciplina e à contenção, abre uma quantidade quase inimaginável de caminhos. Cada escolha fecha algumas possibilidades e deixa outras à espera, ocultas sob o papel.
A comparação com as ferramentas de geração automática de texto é tentadora. Queneau não pediu a uma máquina que escrevesse por ele, criou um conjunto de poemas e um dispositivo para os recombinar. A máquina, neste caso, é também um objecto de leitura. O leitor não recebe apenas um resultado: decide como chegar até ele.
Talvez a liberdade comece quando uma regra bem definida nos dá mais caminhos do que os conseguimos percorrer.