VOZ · 20 de setembro de 2026 · 3 min de leitura
Pedir desculpa com a própria boca
Em 2017, uma companhia aérea pediu desculpa por ter de «reacomodar» passageiros. Em 2018, uma cadeia de frango pediu desculpa baralhando as letras do próprio nome. Entre uma e outra cabe quase tudo o que se pode saber sobre a voz de uma marca.

«Lamentamos o incómodo causado.» Conhecemos a frase dos altifalantes das estações, dos e-mails automáticos, das tabuletas penduradas em portas fechadas. Ninguém a diz em voz alta à mesa de jantar, e é por isso que ninguém a ouve. Foi escrita para pedir desculpa sem que se perceba quem pede, a quem, e porquê.
A 9 de Abril de 2017, no aeroporto O’Hare, em Chicago, um passageiro do voo 3411 da United Express foi retirado à força do avião para libertar lugares. Outros passageiros filmaram. No dia seguinte, o presidente executivo da United, Oscar Munoz, publicou uma declaração em que pedia desculpa por ter de re-accommodate aqueles clientes. Reacomodar.
O verbo diz muito sem dizer nada. Vem dos manuais de operações, onde descreve a tarefa banal de mudar alguém de lugar ou de voo. Aplicado a um homem arrastado pelo corredor, transforma a violência num procedimento e o pedido de desculpa num relatório logístico. Repare-se também no que a frase lamenta. A empresa não pede desculpa pelo que aconteceu ao passageiro; pede desculpa por ter tido de fazer uma operação. O sujeito da frase continua a ser a companhia, ocupada com o seu inventário de cadeiras.
Nessa mesma noite, numa carta interna aos funcionários, Munoz descreveu o passageiro como cada vez mais perturbador e beligerante e defendeu que a tripulação seguira os procedimentos. Só ao terceiro texto, no dia seguinte, apareceu uma frase que soava a pessoa: o episódio era truly horrific, e ninguém devia ser maltratado assim. Foram precisos três comunicados para a empresa encontrar uma voz, e ela apareceu tarde de mais para parecer sua.
Em Fevereiro de 2018, a KFC britânica trocou de parceiro de distribuição e ficou sem frango. Centenas dos seus cerca de 900 restaurantes no Reino Unido fecharam portas. Um restaurante de frango sem frango é uma piada pronta, e o país inteiro estava a contá-la.
A 23 de Fevereiro, os jornais The Sun e Metro publicaram uma página inteira, criada pela agência Mother. Ao centro, o balde vermelho, vazio, com as três letras da marca baralhadas: FCK. Por baixo, o texto começava assim: A chicken restaurant without any chicken. It’s not ideal. Um restaurante de frango sem frango. Não é o ideal. Seguia-se um pedido de desculpa às pessoas que tinham feito caminho para encontrar a porta fechada, uma admissão de que fora uma semana dos diabos e um agradecimento pela paciência.
Tudo neste anúncio é feito com material da própria casa. O balde é o da marca, as letras são as do logótipo, e o palavrão está implícito, na boca de quem lê, onde estava desde o primeiro dia de fecho. A primeira frase nomeia o absurdo com as palavras que os clientes usariam, sem eufemismo nem jargão. O «não é o ideal» é uma atenuação tão exagerada que se torna confissão. E há uma ausência eloquente: a página não diz o nome da empresa de logística. A KFC explicou a falha noutros lugares, mas no pedido de desculpa assumiu-a sozinha.
Seria fácil tirar daqui a lição errada, a de que as marcas devem pedir desculpa com graça. O humor da KFC funcionou porque o dano era pequeno e ninguém se magoou; no voo 3411, qualquer piada teria sido obscena. A diferença está noutro sítio. Uma marca falou com a mesma voz com que vende baldes de frango. A outra pôs de lado a voz que tinha e respondeu com a do departamento de operações.
Fontes
- Boston.com, «Read United CEO’s 3 statements on passenger dragged off flight», 11 de Abril de 2017 (reproduz as três declarações). CNBC, «KFC issues tongue-in-cheek apology after UK chicken shortage causes restaurant closures», 23 de Fevereiro de 2018. Marketing Week, «KFC uses cheeky print advert to apologise for chicken shortage», Fevereiro de 2018 (texto integral do anúncio). It’s Nice That, «Mother London’s KFC advert apology», 23 de Fevereiro de 2018 (autoria da agência).