VOZ · 28 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Ghostwriting: o ofício de escrever a voz dos outros
Há quase vinte e cinco séculos que há quem escreva palavras para outros as dizerem como suas. Hoje chama-se ghostwriting, arrasta fama de segredo e de pequena batota, e é uma das formas mais antigas de pôr uma vida por escrito. Quando é bem feito, é também das mais honestas.

Atenas, finais do século V antes de Cristo: um homem é chamado a tribunal e descobre que está sozinho. Não há advogados na cidade, a lei obriga cada uma das partes a defender-se com a própria voz, diante de um júri numeroso de cidadãos, e só permite a ajuda de um amigo ou parente. O homem sabe o que lhe aconteceu, mas não sabe dizê-lo em público. Procura então um logógrafo, um «escritor de discursos», conta-lhe o caso e, dias depois, recebe um texto que decora palavra a palavra para o recitar no tribunal como se fosse seu. Se o logógrafo se chamar Lísias, o discurso não soará a Lísias, soará ao réu, à sua idade, ao seu ofício, ao seu temperamento, à forma como um homem daquela condição falaria se tivesse o dom da palavra. Os críticos antigos deram um nome a esse talento: etopeia, a arte de construir o carácter de quem fala.
Uma profissão sem nome durante séculos
Lísias era um meteco, um estrangeiro residente em Atenas sem direito a cidadania. Depois de 403 a.C., arruinado pela perseguição dos Trinta Tiranos, fez da escrita de discursos alheios o seu modo de vida. A Antiguidade conhecia centenas de discursos com o seu nome, mas apenas chegaram até nós 34. Três séculos e meio mais tarde, o crítico Dionísio de Halicarnasso apontava-o como mestre da etopeia, e os estudiosos modernos continuam a admirar a forma como Lísias sabia habitar e projectar o carácter de quem lhe encomendava o texto. Há um pormenor que agrada particularmente a quem gosta de coincidências: é com um discurso de Lísias na mão que Fedro aparece no diálogo de Platão onde se lança o mais antigo ataque à escrita.
George Whashington e o Farewell Address
Dois mil e duzentos anos depois, em 1796, George Washington preparava-se para deixar a presidência dos Estados Unidos. Quatro anos antes, quando pensara retirar-se, pedira a James Madison um rascunho de despedida. Desta vez, pediu a Alexander Hamilton que o revisse ou que recomeçasse do zero. Hamilton escreveu um texto novo, John Jay ajudou a afiná-lo parágrafo a parágrafo, e o Farewell Address tornou-se um dos documentos fundadores da república, ainda hoje lido em voz alta no Senado. Os editores dos papéis de Washington resumem a autoria numa linha: as ideias são do presidente, a estrutura é de Hamilton. Durante anos, ninguém o disse em público.
Adios to Ghosts
A palavra que hoje usamos ganhou fama muito mais tarde, nas redacções desportivas norte-americanas. Em 1921, Christy Walsh, um cartoonista desempregado, montou um sindicato de jornalistas que escreviam colunas assinadas por estrelas do basebol, Babe Ruth à cabeça. Chegou a ter dezenas de escritores ao serviço de Ruth, Lou Gehrig ou Ty Cobb. Quando fechou o negócio, no fim dos anos 30, deu às suas memórias um título que dispensa tradução: Adios to Ghosts.
Onde passa a linha
Washington não fingiu ter ideias que não tinha: as convicções, a experiência e a decisão eram dele, e Hamilton deu-lhes forma. Um ghostwriter empresta a mão. Não empresta a vida, as ideias nem as convicções, e um texto escrito dessa forma só é legítimo quando a substância pertence a quem o assina.
O ghostwriter mais célebre do nosso tempo
O ghostwriter mais célebre do nosso tempo, o jornalista norte-americano J. R. Moehringer, Prémio Pulitzer em 2000, escreveu as memórias do tenista Andre Agassi (Open, 2009), do fundador da Nike, Phil Knight (Shoe Dog, 2016), e do príncipe Harry (Na Sombra, 2023, na edição portuguesa da Objectiva). Nunca pôs o nome na capa. Agassi conta nos agradecimentos de Open que insistiu para que o fizesse e que Moehringer recusou: não se via a assinar com o seu nome a vida de outro homem. Para escrever o livro, Moehringer mudou-se dois anos para Las Vegas, para uma casa a pouco mais de um quilómetro e meio da de Agassi.
Em Maio de 2023, depois de a imprensa lhe ter descoberto a identidade e lhe ter montado cerco à família, Moehringer contou na New Yorker como se faz este trabalho. O ensaio abre com uma discussão às duas da manhã, por videochamada: Harry queria acabar uma cena da instrução militar com a resposta que dera aos instrutores que, num exercício, lhe tinham insultado a mãe; Moehringer cortara-a durante meses, por achar que nada acrescentava à história. A lição que tira é que as memórias não servem para o autor ganhar todas as discussões que perdeu na vida; as memórias servem a história. E o ghostwriter tem o dever de o dizer, mesmo a quem lhe paga.
Um bom ghostwriter não é um transcritor de luxo nem um ventríloquo. É o primeiro leitor exigente de uma vida, alguém que pergunta o que mais ninguém pergunta, que separa o que a pessoa quer dizer do que a pessoa precisa de dizer, e que depois desaparece para que só se ouça a voz de quem assina.
Como se faz, na Máquina de Escrever
Na Máquina de Escrever, um trabalho de ghostwriting começa sempre à volta de uma mesa, com um café por companhia. A primeira conversa não serve para vender nada. Tem como objetivo único perceber o que a pessoa quer escrever, para quem, e porque é que o quer fazer agora. Muitas vezes, sai-se dela com um projecto diferente do que se tinha em mente ao entrar.
Segue-se a fase mais longa e menos visível: escutar. Conversas, conversas e conversas, umas com guião, outras ao sabor do tempo que se tem, sem plano. Depois escavamos: publicações nas redes sociais, árvore genealógica, documentos, fotografias, datas, amigos e conhecidos (se for o caso).
Antes de escrever uma linha de texto final, propõe-se uma estrutura: o fio da história, o que entra, o que fica de fora e porquê. Só depois de essa arquitectura estar validada começa a escrita. A primeira versão é o princípio de uma conversa. Afina-se a dois, capítulo a capítulo, até o autor deixar de a sentir como de outra pessoa e a reconhecer como sua.
Pelo caminho, cabe ao ghostwriter o papel que Moehringer descreve: perguntar o que incomoda, cortar o que só serve a vaidade e, sim, também defender o leitor. O mesmo método serve um livro de memórias, a história de uma empresa, um discurso de casamento ou uma coluna de opinião assinada por um gestor. Muda a escala, mas não muda a regra: a voz é sempre de quem assina.
O melhor elogio
No mesmo ensaio, Moehringer chama a isto o paradoxo místico do ghostwriting: estar em todo o texto e em lado algum, ser indispensável e deixar-se estar invisível. Lísias saberia do que ele fala: o maior elogio que um logógrafo podia receber em Atenas era o júri não dar por ele, acreditar que aquelas palavras tinham nascido na boca do réu. Vinte e quatro séculos depois, a medida é a mesma. Um texto escrito por encomenda está bem feito quando quem o lê ouve uma pessoa só: quem o assina.
Se tem uma história toda na cabeça e não a consegue pôr no papel sem que saia morna; se não tem tempo ou vontade, mas tem coisas para dizer: vamos conversar. O café fica por nossa conta.