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MEMÓRIA · 1 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Quem estava sentado onde

A arte da memória nasceu numa sala em ruínas, das mãos de um poeta que sabia onde cada conviva se sentara. Vinte e cinco séculos depois, quem escreve uma vida continua a trabalhar com o mesmo método.

O tecto caiu a meio do banquete. Simónides de Ceos tinha saído instantes antes, chamado à porta por dois jovens que diziam precisar dele com urgência, e quando se voltou já não havia sala. Os familiares que vieram buscar os corpos não os conseguiam distinguir: nem os rostos, conta Quintiliano, nem sequer os membros. Simónides conseguiu. Lembrava-se do lugar em que cada um estava sentado e, percorrendo de cabeça uma mesa que deixara de existir, foi devolvendo a cada família os seus mortos.

É assim que a Antiguidade conta o nascimento da arte da memória. Cícero fixou a história no De Oratore, no ano 55 antes de Cristo, e tirou dela a regra que a técnica nunca abandonou: o que ilumina a memória é, antes de mais, a ordem. Nos séculos seguintes, a regra tornou-se ofício. Escolhe-se um edifício bem conhecido, amplo e variado, com muitas divisões, e deposita-se em cada uma delas uma imagem daquilo que se quer guardar. Para recordar, volta-se a entrar e percorre-se a casa pela ordem certa. Os oradores romanos decoravam assim discursos inteiros. Chamamos-lhe hoje palácio da memória, embora quase toda a gente o construísse com as divisões mais modestas da casa onde crescera.

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A história tem um problema, e é por causa dele que vale a pena contá-la outra vez. Quintiliano, um século depois de Cícero, repete-a com uma honestidade desconcertante. Os autores, escreve, não se entendem sobre o homem em honra de quem o poema foi composto: Scopas, Glauco de Caristo, Leócrates ou Agatarco. Também não se entendem sobre a cidade onde ficava a casa, Farsalo ou Crânon. Há acordo apenas quanto à morte de Scopas, um nobre da Tessália, naquela sala. E os dois jovens à porta, que a lenda identifica com Castor e Pólux, os gémeos divinos que Simónides louvara no poema e que Scopas se recusara a pagar, parecem-lhe pura fábula, porque o próprio poeta nunca mencionou o episódio e dificilmente se calaria sobre algo que tanto o honrava.

A história fundadora da memória chegou até nós como quase todas as memórias chegam: com o nome do anfitrião em disputa, a morada incerta, um prodígio acrescentado pelo caminho e um protagonista que não deixou testemunho. Sobreviveu intacto apenas aquilo que Simónides tinha salvado. A disposição das cadeiras.

Quem escreve memórias de família reconhece o padrão. As pessoas raramente chegam com datas certas. Chegam com lugares: a cozinha onde se discutia tudo menos dinheiro, o banco à porta da oficina, o quarto que ninguém voltou a abrir. As datas aparecem mais tarde, nas certidões, e às vezes desmentem a família inteira. Os lugares enganam-se menos, porque foi neles que a memória pousou. Quintiliano também o sabia. Quando regressamos a um sítio depois de uma longa ausência, observa, reconhecemos o lugar e lembramo-nos do que lá fizemos, de quem lá encontrámos e até dos pensamentos que nunca chegámos a dizer em voz alta.

Uma entrevista para um livro de vida acaba por ser uma visita guiada a um palácio que o próprio dono nunca desenhou. Pergunta-se por um ano e a resposta tropeça. Pergunta-se pela casa da Rua de Cima e a pessoa entra, abre a porta da sala, diz onde estava o rádio e quem se sentava ao pé dele, e de repente o ano aparece sozinho, trazido pela mobília.

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Há uma ironia antiga à espera neste ponto. No Fedro, Platão conta que o deus Theuth ofereceu a escrita a um rei do Egipto como remédio para a memória, e que o rei a recusou como presente envenenado: quem confiasse nas letras deixaria de exercitar a lembrança e passaria a recordar de fora para dentro, por sinais alheios. Durante séculos, a arte da memória funcionou como resistência a esse remédio, guardando na cabeça o que outros guardariam no papel.

O destino de Simónides complica a querela. Se ninguém tivesse escrito a sua história, o inventor da memória teria sido esquecido. Devemos-lhe a técnica, e devemos a Cícero e a Quintiliano a lembrança de que ele existiu, com os nomes trocados e a geografia em dúvida, mas com o essencial no lugar. A escrita fixou o palácio e, ao fixá-lo, também lhe registou as rachas.

O palácio interior tem, de resto, o mesmo defeito da sala de Scopas. Existe apenas enquanto alguém o consegue percorrer. Quando o dono se esquece do caminho, ou deixa de estar cá para o fazer, as imagens ficam sem porta. Ninguém herda a casa que outra pessoa trazia na cabeça. Herda-se, quando muito, a planta, se alguém se tiver lembrado de a desenhar.

À MARGEM

O banquete na China. Em 1596, em Nanchang, o jesuíta Matteo Ricci escreveu em chinês um pequeno tratado sobre a arte da memória, o Xiguo jifa, para o governador da província de Jiangxi, que preparava três filhos para os exames imperiais. Ensinava-os a erguer palácios na cabeça e contava-lhes, como Cícero, a história de Simónides, que no texto chinês se chama Ximonide. O tecto da Tessália caiu, assim, uma segunda vez, quase dois milénios depois e do outro lado do mundo.

O método ainda funciona. Em 2017, uma equipa liderada pelo neurocientista Martin Dresler publicou na revista Neuron um estudo com 51 pessoas sem treino prévio de memória. O grupo que praticou o método dos lugares, meia hora por dia durante cerca de seis semanas, passou de 26 a 30 palavras recordadas numa lista de 72 para, em média, mais 35. Quatro meses depois, sem treino, ainda se lembrava de mais 22 palavras do que no início. Os campeões de memória estudados pela mesma equipa disseram, sem excepção, que tinham uma memória normal antes de aprenderem estas estratégias.

Fontes

  • Cícero, De Oratore, livro II, cap. 86 (fonte primária). Texto latino e tradução inglesa no Scaife Viewer / Perseus.
  • Quintiliano, Institutio Oratoria, XI, 2, 11–17, trad. H. E. Butler, Loeb, 1920–1922 (fonte primária).
  • Platão, Fedro, 274c–275b (fonte primária).
  • Matteo Ricci, Xiguo jifa (1596); Jonathan D. Spence, The Memory Palace of Matteo Ricci (1984).
  • M. Dresler et al., «Mnemonic Training Reshapes Brain Networks to Support Superior Memory», Neuron, 2017, doi:10.1016/j.neuron.2017.02.003.

Para aprofundar:

  • Frances A. Yates, The Art of Memory (1966).
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