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Clube dos Curiosos

O Espanto

Tão devagar quanto possível

Como habitamos uma obra que excede o tempo de uma vida?

Marisa Sousa · 14 de outubro de 2026 · 3 min

Em Halberstadt, no centro da Alemanha, há um concerto que começou a 5 de setembro de 2001 e está previsto terminar a 4 de setembro de 2640. Começou em silêncio: só dezassete meses depois se ouviu o primeiro acorde.

A obra chama-se ORGAN²/ASLSP. John Cage compôs a versão para órgão em 1987, a partir de uma peça para piano, de 1985. O título condensa a instrução As Slow as Possible, «tão devagar quanto possível», e ecoa as palavras «Soft morning city! Lsp!», no último parágrafo de Finnegans Wake, de James Joyce. Cage não fixou um andamento exato. Em 1998, numa reunião sobre música para órgão, em Trossingen, um grupo de músicos e filósofos decidiu levar a indicação à letra.

A escolha de Halberstadt recua a 1361. Foi então instalado na catedral da cidade um grande órgão com uma disposição de teclado semelhante à que ainda hoje usamos. É a memória desse instrumento que ajuda a explicar os 639 anos do projeto. O órgão que toca agora está noutra igreja: a antiga Burchardi, que já serviu de celeiro, armazém, destilaria e pocilga. Um soprador mantém o ar em movimento; três pequenos sacos de areia conservam as teclas premidas.

As mudanças de som são raras o bastante para se tornarem acontecimentos. A mais recente, a 5 de agosto de 2026, acrescentou uma nota ao acorde: passou de sete para oito. A próxima, marcada para 5 de outubro de 2027, fará o contrário: uma nota sairá e o acorde voltará a ter sete. Em 25 anos, percorreu-se cerca de quatro por cento da execução.

Também na Batalha há uma obra que atravessou vidas. Em 1437, D. Duarte mandou construir um panteão para si e para os reis que lhe sucederiam. Morreu no ano seguinte. As obras passaram por vários mestres; já no início do século XVI, Mateus Fernandes deu às Capelas Imperfeitas o seu portal manuelino, com cerca de quinze metros. O desinteresse de D. Manuel I pelo panteão e a escolha dos Jerónimos para sua sepultura contribuíram para que a obra não fosse concluída. Ainda houve um último impulso no reinado de D. João III. O octógono central, porém, ficou aberto ao céu.

«Imperfeitas» guarda aqui um sentido antigo. Perfectus, particípio do latim perficere, significa levado a cabo, concluído. Imperfeito é o que não chegou ao seu termo.

Halberstadt e Batalha aproximam-se por aquilo que deixam em aberto, embora de maneiras diferentes. Uma execução foi deliberadamente estendida para além do tempo de uma vida; o panteão da Batalha ficou por concluir após sucessivas campanhas. Quem ouve hoje não chegará ao último acorde. E os mestres que trabalharam nas Capelas não viram o panteão acabado.

Vivemos a exigir conclusão a tudo: o episódio seguinte, o resumo, a resposta. Em Halberstadt, uma nota que desaparece será um acontecimento. Na Batalha, comove-nos o espaço que continua aberto. Talvez a pressa nasça da dificuldade de permanecermos dentro de uma obra maior do que a nossa vida.