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Clube dos Curiosos

O Espanto

O robot nasceu no palco

Marisa Sousa · 19 de outubro de 2026 · 2 min

Em 1920, o escritor checo Karel Čapek publicou R.U.R., iniciais de Rossum’s Universal Robots. A peça chegou aos palcos no ano seguinte: primeiro em Hradec Králové e, semanas depois, em Praga. A palavra entrou no imaginário do público através de uma fábrica de trabalhadores artificiais.

Karel escreveu a peça, mas foi o irmão, Josef Čapek, pintor e escritor, quem lhe sugeriu a palavra «robot». Derivava de robota, termo checo associado ao trabalho forçado e à servidão. O nome que viria a designar máquinas trazia, desde o primeiro dia, uma relação de trabalho inscrita no corpo.

Na peça, os robots são fabricados para executar o trabalho humano. A empresa que lhes dá nome transforma a criação de seres artificiais numa indústria; os humanos esperam libertar-se do esforço e acabam por depender inteiramente dos seus trabalhadores. A revolta que se segue pertence à ficção científica, mas a pergunta que a move é antiga: que lugar damos a quem faz o trabalho de que preferimos não nos ocupar?

Há outra surpresa: os robots de Čapek não eram máquinas de metal. Eram seres artificiais, feitos de matéria orgânica, concebidos para parecer humanos e servir como mão-de-obra. O próprio autor descreveu-os como criações químicas e biológicas. O robot de engrenagens, cabos e chapas que hoje nos vem à cabeça nasceu depois; a peça imaginava uma espécie de trabalhador fabricado, mais próximo do humano do que do mecanismo.

É fácil ler R.U.R. como uma profecia sobre a inteligência artificial. Čapek escreveu num período marcado pela industrialização e pelas máquinas de guerra da Primeira Guerra Mundial. O centro da peça assenta na produção em massa, na ambição de eliminar o trabalho e na facilidade com que os seres criados para servir passam a ser tratados como coisas. A tecnologia muda; a pergunta sobre quem trabalha, quem decide e quem beneficia permanece.

A ligação a Frankenstein, de Mary Shelley, também ajuda a abrir a peça. Nas duas histórias, seres criados pelos humanos acabam por expor os limites de quem os criou. Shelley concentra-se no abandono e na responsabilidade; Čapek desloca a pergunta para a fábrica, para a escala industrial e para o valor atribuído ao trabalho.

A palavra fez, entretanto, uma viagem curiosa. Saiu do palco, atravessou línguas e passou a nomear máquinas de muitas formas. Robota continua lá, como uma peça antiga dentro de uma máquina nova. Talvez valha a pena escutá-la. Quando dizemos «robot», falamos de uma máquina, de um trabalhador ou da fronteira que traçamos entre os dois?