O Espanto
A que cheira o inferno?
O nariz, como os olhos, lê o mundo através de códigos aprendidos.
Marisa Sousa · 1 de outubro de 2026 · 3 min

Uma pintura de Martin Schaffner levou investigadores, historiadores e perfumistas a experimentar uma pergunta improvável. O projecto ODEUROPA procura devolver ao património um sentido que raramente fica guardado nos arquivos: o olfacto.
Numa pintura de Martin Schaffner, Christus in der Vorhölle, de 1519, Cristo desce ao Limbo. Uma fortaleza em ruínas representa o inferno; das suas paredes escapam fumos cinzentos, enquanto uma criatura demoníaca cospe fogo. Durante séculos, a cena pôde ser vista. No Museu de Ulm, durante uma visita guiada organizada pelo projecto ODEUROPA, também pôde ser cheirada.
A equipa não encontrou um aroma antigo preso à madeira ou escondido nas tintas, criou uma evocação. Investigadores e perfumistas partiram da imagem, de textos históricos e das associações que, ao longo do tempo, ligaram o enxofre ao fogo, ao demónio e ao mundo subterrâneo. Historiadores, especialistas em arte e criadores de fragrâncias acompanharam o processo. O resultado é uma interpretação olfactiva, informada pela história, de uma ideia pintada.
O enxofre foi associado ao inferno na tradição cristã, em parte pela ligação entre os seus odores fortes, a actividade vulcânica e as imagens do submundo. No entanto, ao longo dos séculos, também foi usado em práticas médicas, fumigações e perfumes. O mesmo cheiro podia sugerir danação, doença ou tratamento. O nariz, como os olhos, lê o mundo através de códigos aprendidos.
O caso de Schaffner faz parte de uma investigação mais vasta. O ODEUROPA cruzou conhecimentos de história, história da arte, química, linguística computacional e ciência do património para estudar o papel dos cheiros na cultura europeia. Entre 2021 e 2023, o projecto usou ferramentas de inteligência artificial para procurar referências olfactivas em cerca de 43 mil imagens e 167 mil textos históricos, em seis línguas. Os algoritmos ajudaram a localizar menções e representações; a interpretação coube aos investigadores.
É uma forma diferente de entrar num arquivo. Em vez de procurar apenas por autor, data ou lugar, podemos começar pelo cheiro: enxofre, incenso, canais, luvas perfumadas. O projecto construiu um explorador digital que permite percorrer mais de três séculos de referências olfactivas e seguir as relações entre cheiros, práticas, espaços e emoções.
O olfacto deixa poucos vestígios duradouros. Um perfume evapora; o cheiro de uma rua muda com os hábitos, os materiais e a estação. Ainda assim, os textos registam odores que avisavam de perigo, distinguiam estatutos sociais, acompanhavam rituais ou anunciavam a presença do sagrado e do impuro. As imagens também guardam indícios: fumo, ervas, recipientes, gestos de quem cheira. Reunidos, esses vestígios permitem aproximar-nos de uma experiência que não podemos recuperar por inteiro.
Talvez seja esse o limite fértil do projecto. O cheiro recriado não nos transporta literalmente ao século XVI; lembra-nos, antes, que o passado tinha uma dimensão sensorial que os museus e os livros costumam deixar em silêncio. Podemos olhar para a fumaça pintada e imaginar o que significava; podemos aproximar-lhe um aroma, sabendo que a distância entre a imagem e o cheiro continua lá.
Por vezes, para voltar a ver uma obra, é preciso começar por perguntar a que cheirava.