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Clube dos Curiosos

O Espanto

A fome de ver por ver ou a concupiscência dos olhos

Marisa Sousa · 8 de outubro de 2026 · 4 min

Manifesto do Clube dos Curiosos

Por volta do ano 400, em Hipona, um bispo africano sentado em casa deu por si a olhar para a parede. Uma osga caçava moscas. Aurélio Agostinho, que tinha lido Cícero e os platónicos, que pensava a natureza do tempo e a substância de Deus, ficou ali, preso a um bicho do tamanho de um dedo. Mais tarde, no livro X das Confissões, contou o episódio como quem confessa uma falta. Já não ia ao circo ver os cães correrem atrás das lebres, escreveu, mas bastava uma osga a apanhar moscas, ou uma aranha a enredá-las na teia, para lhe roubar a atenção.

Deu a essa fraqueza o nome de concupiscência dos olhos, concupiscentia oculorum, e arrumou-a entre as tentações, logo a seguir às da carne. A curiosidade era, para ele, um apetite: a fome de ver por ver, de passar de um espectáculo a outro sem que nenhum nos mude.

Durante mais de mil anos, a suspeita pesou sobre ela. Curioso era quem metia o nariz onde não era chamado, no céu, nos segredos de Deus, na vida alheia; quando São Tomás de Aquino a quis salvar, teve de lhe dar outro nome. Hans Blumenberg chamou ao que veio depois o Prozess da curiosidade teórica, palavra que em alemão serve tanto para processo como para julgamento: a modernidade levou a curiosidade a tribunal e absolveu-a. Galileu apontou o óculo ao céu, os gabinetes de curiosidades encheram-se de conchas e de dentes de narval vendidos como cornos de unicórnio, e o desejo de saber passou de vício a motor da civilização.

Ganhámos o julgamento. Quatro séculos depois, trazemos no bolso uma parede sem fim, com uma osga nova a cada movimento do polegar. Agostinho reconheceria o gesto à primeira: o olho que salta, a fome que não sacia, o espectáculo esquecido no instante em que acaba. Nós chamamos-lhe informação. Ele chamar-lhe-ia aquilo que lhe chamou.

Este Clube nasce de uma suspeita. Agostinho acertou no sintoma, mas errou no diagnóstico.

O problema nunca foi a osga. Se o bispo tivesse ficado mais tempo diante da parede, teria visto uma criatura caminhar de pernas para o ar pelo tecto, sem cola nem ventosas. Foi preciso chegar ao nosso século para se medir como. Cada pata tem centenas de milhares de pêlos minúsculos, cada pêlo divide-se em centenas de pontas, e essas pontas aproximam-se tanto da superfície que a atracção entre moléculas, uma força tão fraca que a desprezamos em quase tudo, basta para segurar o animal inteiro. A osga agarra-se ao mundo pela mais delicada das forças, multiplicada pela paciência de milhões de anos.

O pecado nunca esteve no olhar. O erro era largar depressa.

A própria palavra sabe-o melhor do que nós. Curiosus vem de cura, cuidado. Na origem, curioso é quem cuida, quem dá atenção a uma coisa até ela lhe dizer respeito. Da mesma raiz nasceram a cura que sara e a curadoria que escolhe. Existem, portanto, duas curiosidades com o mesmo nome. Uma consome: é a que Agostinho temia e a que o ecrã alimenta. A outra cuida, e demora-se no objecto até ele se abrir. A primeira acumula. A segunda transforma quem olha.

O português guarda ainda um terceiro sentido. Entre nós, curioso é também quem faz sem diploma, por gosto: o curioso de electricidade que arranja a instalação da vizinha, o curioso de relógios que abre um mecanismo só para ver como bate. Ninguém lhe pediu nada, ninguém lhe paga, e sabe muitas vezes mais do que o especialista porque nunca deixou de perguntar. É desses que este Clube se quer.

Aqui não se aprende para render mais. Aprende-se porque é belo saber. Nuccio Ordine chamou-lhe a utilidade do inútil. Há saberes que não servem para nada porque não são servos de nada. Não lhe prometemos que sairá mais eficiente nem mais bem preparado para a próxima reunião. Prometemos o contrário de uma notícia, coisas que não envelhecem amanhã. Uma palavra que outra língua não sabe dizer. Uma ligação entre dois mundos que ninguém se lembrou de fazer. Uma pergunta que ficou acordada durante séculos. Um facto que entra pela porta da cozinha e sai pela da metafísica.

Prometemos também que tudo o que aqui publicarmos acaba. Haverá sempre um último parágrafo e, depois dele, silêncio, para que a ideia uma cama onde dormir.

Pedimos-lhe pouco, que é muito: que passe por cá, que leia até ao fim e depois olhe para a parede durante um bocado. Pode ser que lá esteja uma osga, agarrada ao mundo desde muito antes de nós.

Agostinho pediu perdão por ter ficado a olhar.
Este Clube existe para pedir perdão por todas as vezes que não ficámos.